Há viagens que não se fazem apenas com os pés, mas também com a pele, os olhos e o olfato. Marrocos é um desses destinos que se vive com todos os sentidos. Soa a tambores e chamadas para a oração, cheira a especiarias e menta fresca, brilha sob o sol do deserto e acaricia com o calor de uma hospitalidade ancestral. Neste novo post de Viajantes com B, atravessamos montanhas, vales e dunas douradas para descobrir a alma de um país que vibra entre a tradição e a magia.

1.- Marraquexe, a cidade vermelha que nunca dorme
Tudo começa em Marraquexe, a lendária cidade vermelha, um conjunto de culturas, épocas e sons onde o onírico se mistura com o quotidiano. A nossa primeira paragem é no Jardim Majorelle, onde o azul cobalto se impõe, contrastando com os cactos e plantas exóticas que crescem sob o sol africano. Mesmo ao lado, o Museu Yves Saint Laurent revela-nos como esta cidade inspirou algumas das obras mais icónicas do estilista francês.
O percurso leva-nos à Medersa Ben Youssef, uma antiga escola corânica que guarda o eco de séculos de sabedoria. Os mosaicos, a caligrafia e a madeira entalhada envolvem-nos num silêncio sagrado. O meio-dia surpreende-nos entre ruelas, aromas de tajine e esplanadas com vista para os souks, onde se saboreia Marrocos com calma.
À tarde, o Palácio da Baía recebe-nos com pátios sombreados e aposentos que sussurram histórias de vizires e concubinas. Mas é ao cair da noite que Marraquexe se transforma: na Praça Jemaa el-Fna, músicos gnawa, encantadores de serpentes e contadores de histórias criam um espetáculo sem guião. Uma energia caótica e fascinante que nos lembra que esta cidade nunca dorme.

2.- Atravessando o Alto Atlas em direção às kasbahs do cinema
No dia seguinte, deixamos a cidade para trás para iniciar a Rota das Kasbahs, uma viagem que nos leva de fortaleza em fortaleza por paisagens que parecem de outro planeta. A estrada serpenteia pelo porto de Tizi n’Tichka, no coração do Alto Atlas, e à medida que subimos, as cores mudam: do ocre ao verde, do azul ao branco dos cumes distantes.
A meio do caminho, como uma miragem que se torna realidade, surge Ait Ben Haddou, a kasbah mais famosa de Marrocos, declarada Património Mundial. As suas muralhas de adobe foram palco de filmes épicos como Gladiador ou Game of Thrones, mas, para além do cinema, é a sua autenticidade que nos cativa. Passear pelas suas ruelas é viajar ao passado.
A rota continua até Ouarzazate, a «porta do deserto», onde o pó da estrada e a luz dourada do fim da tarde criam uma atmosfera mágica. Aqui podemos visitar os estúdios de cinema mais famosos de África, onde se guardam cenários impressionantes. Também podemos descobrir a kasbah de Tifoultoute, tudo isto antes de dormir nesta cidade que parece estar sempre prestes a ser filmada.

3.- Para o sul: do vale do Dades às dunas de Merzouga
No terceiro dia, entramos na parte mais selvagem de Marrocos. O vale do Dades conduz-nos entre palmeirais, aldeias de adobe e montanhas esculpidas pelo vento. Em breve chegamos às Gargantas do Todra, um desfiladeiro com mais de 200 metros de altura, onde o silêncio só é quebrado pelo murmúrio da água e pelos passos sobre a pedra.
De lá, seguimos para o sul, onde a paisagem se torna cada vez mais mineral. O verde desaparece e o horizonte ganha tons dourados com a chegada iminente ao deserto, depois de atravessar Erfoud e Rissani.
As primeiras dunas do Erg Chebbi aparecem como ondas de fogo, que atravessaremos em 4×4 até ao nosso acampamento de luxo, um oásis de conforto no meio do nada. O jantar sob as estrelas, acompanhado por música berbere e silêncio cósmico, torna-se uma daquelas memórias que ficam gravadas para sempre. E dormimos entre tecidos suaves e os sons do vento a embalar as areias.

4.- Amanhecer no Sahara
Mesmo antes do sol nascer, subimos uma duna para ver como o deserto do Sahara se tinge de tons rosados e dourados. Não há palavras para descrever essa sensação de imensidão e de pura conexão com o entorno, num momento de reflexão e beleza absoluta.
Após o pequeno-almoço, iniciamos o caminho de volta passando por Agdz, às margens do vale do Draa, onde um palmeiral infinito esconde novas fortalezas. A rota atravessa o Anti-Atlas por Tizi n’Tnifift, com as suas curvas sinuosas e paisagens lunares, e leva-nos até Marraquexe ao entardecer. E desta forma, Marrocos despede-se de nós tal como nos recebeu: com contrastes, surpresas e uma beleza que não se deixa categorizar.